Nuno Alvares

O “Lembrai-vos”, famosa oração composta por São Bernardo de Claraval: uma argumentação advocatícia carregada de amor para com Nossa Senhora

Santo do Dia, 27 de setembro de 1980 (trecho final)

Plinio Corrêa de Oliveira

Para o vídeo: S. Bernardo e o “Lembrai-vos”

Os senhores compreendem, então, facilmente, como esse exemplo de Nosso Senhor admirando as coisas, até as pequenas, e amando-as com uma ternura especial, é uma lição para nós termos a alma propensa à admiração, fácil à admiração. Não à admiração do mega [orgulhoso]. Aliás, o mega não admira. Mas, enfim, uma como que admiração do mega: “se algo se apresentar a mim, tão superior a mim que me obrigue à homenagem, eu então digo: “é justo; e dobro o joelho”.

Absolutamente não! Se algo se apresentar a mim, que em qualquer sentido manifeste Aquele que infinitamente é superior a mim, eu me inclino e digo: “eis aí”!

Há nisso uma flexibilidade da alma católica, há nisso uma doçura, uma suavidade que agora nos faz, então, pensar em Nossa Senhora. Quer dizer, os senhores tomem o Memorare [Lembrai-vos].

O Memorare os senhores sabem que foi composto por São Bernardo. Eu nunca vi um quadro de São Bernardo, mas eu imagino São Bernardo – é como ele está no meu espírito – quando ele teria mais ou menos uns 35 anos.

Eu o imagino “plutôt” [mais bem] alto, quase esguio, claro, com traços regulares do qual nenhum chamaria especialmente a atenção, com um cabelo rigorosamente rapado, com uns olhos firmes, transparentes e perfurantes.

Capazes, entretanto, de uma doçura inimaginável, eloquente como fogo, mas uma chama de fogo que saísse de dentro desta “neve de pureza”, que era o corpo dele e a túnica alvíssima dele. A aura cor de neve, imponderável e meio prateada que o cercava.

Eu o imagino rezando aos pés de Nossa Senhora. E dizendo com uma ênfase na qual entra todo afeto, mas entra uma argumentação quase um pouco polêmica.

A gente vê, aos pés dele, junto a ele um pecador arrependido, alquebrado de tristeza pelo que fez, mas que ainda não se emendou, que talvez tenha recaído várias vezes depois de várias graças preciosas.

No altar está a Virgem Santíssima. Superior, puríssima, transcendente. E de tal maneira contrastante com aquele miserável molambo que está no chão que a gente se pergunta como é que ele teve a audácia de trazer aquilo para perto dAquela?

E ele reza com o corpo reto, o olhar confiante, mas a voz de advogado: “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer”…

Já é uma argumentação! Porque o que está no fundo é a certeza de que Ela atenderá. Mas no seguinte argumento: “Vós não querereis, por amor à Vossa própria glória, que pela primeira vez se ouça dizer que Vós não atendestes!”

“Eu argumento com Vós, contra a transcendência de Vossa pureza celeste. E que vossa grandeza de Mãe de Deus nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tivesse recorrido à Vossa proteção”.

Agora vem mais forte, como para comover: “implorado a Vossa assistência, clamado por Vosso socorro, fosse por Vós desamparado”.

A gente tem vontade, quando acaba de dizer, dizer: “que estrofe! Que voo de alma!”

A gente precisa parar um pouco para admirar a trajetória porque ele voou diretamente ao coração dEla: “Veja esse coitado, esse molambo, aqui ele está clamando, ele está implorando, está pedindo. É um molambo, mas nunca se ouviu dizer. Logo não há ninguém que fique fora do circuito! Ele é alguém; logo, oh Mãe, ele está dentro do circuito!”

Não sei se os senhores sentem a argumentação advocatícia, mas que vem carregada de amor, como quem diz: “Mãe, Vós sois tão boa, tão, tão boa que até isto aqui, se Vós sorrirdes para ele, ele se transforma. Lembrai-vos da água de Caná que se transformou em vinho! Dizei uma palavra para ele, e ele muda. Minha Mãe, menos que uma palavra, um sorriso. Menos do que um sorriso, um olhar, e já ele está mudado!

“Minha Mãe, admiremo-lo. Como ele seria admirável se ele fosse bom. E com um olhar vosso pode torná-lo admirável. Admiremo-lo juntos, ó Mãe!”

E Ela está admirando São Bernardo e dizendo: “Entre os filhos dos homens, como Bernardo me é amado! Quanto admirável é o Bernardo! A quem Eu dei tantas graças e que de tal maneira as guardou porque ajudei a ele”.

E Ela diz a si mesma: “Eu estou deliciosamente presa na engrenagem das minhas misericórdias. Eu fiz bem a Bernardo, por misericórdia. E Bernardo se tornou tão bom que eu não posso recusar a ele o que ele me pede!

“E o bem que Eu não faria se não houvesse Bernardo, Bernardo me obriga deleitavelmente a fazer porque Bernardo existe!”

Os senhores imaginem o final. O Memorare terminou, e a graça foi concedida. O homem começa a sentir uma pulsação espiritual dentro de si, algo de um pouco novo, uma coragem para dizer “não” para sua própria imundície; uma vontade mais ativa de ser bom que não é uma coisa puramente platônica; uma deliberação que se vai tornando mais forte; uma esperança que começa a viver nele.

Ele percebe que aquele homem disse algo àquela imagem imóvel e que a imagem deixa resplandecer algo do “sim” que Bernardo ouviu. Quem sabe se ele, com as mãos sujas dele, toca a ponta da túnica de Bernardo. E ele percebe que as mãos ficam alvas! E a esperança nasce na alma dele.

Os anjos estão vindo porque Nossa Senhora mandou para sobrevoarem esse homem e para levarem para algum lugar de remota penitência, aonde por toda a vida vai pedir perdão, até o momento em que sua alma se desprenda do seu corpo, pura como no dia da inocência e recebida pelos Anjos no Céu!

Terminou o Memorare de São Bernardo! Terminou também o ciclo da admiração.

Deus criou uma Mãe tão perfeita que Ele não pode negar nada a Ela. Esta Mãe, numa abundância de generosidade, obteve dEle que suscitasse milhares e milhares de almas que Ele e Ela admiram também e aos quais Eles nada podem negar. Essas almas pedem pelos medíocres. Pedem até pelos transviados.

E o olhar admirativo de Deus, o olhar admirativo de Maria pousa sobre o medíocre, o poca. Pousa sobre um sórdido e aquilo começa a viver como as águas de Genesaré. A admiração chegou ao mais baixo e chegou ao fim de sua própria história. A admiração que desce é o “pendant” da admiração que sobe.

Eu lhes dei, portanto, um complemento da “história da admiração”. E com isso está terminada a nossa reunião.
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A D V E R T Ê N C I A

O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor. Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito: “Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”. As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo“, em abril de 1959.

Nota: Para numerosos comentários de Dr. Plinio sobre o tema, consulte a coletânea MARIOLOGIA.

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